quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Estranhos prazeres


Toda manhã se olha no espelho. É quase que um transtorno obsessivo-compulsivo. Não interessa onde amanheça a primeira coisa que se lembra é de por seus óculos, acender um cigarro e procurar nem que seja um pedaço de espelho qualquer. Não, não é mais um Narciso que se apaixona mil vezes por ele mesmo. Tenta ver se aquele pedaço de vidro reflete os anos e as aventuras passadas. Os anos são perceptíveis por marcas de expressão mais fortes, olheiras e algumas rugas. Já as aventuras nunca as conseguiu encontrar nos inúmeros espelhos pelos quais se viu.

Sempre quando vai à casa de alguém ou em algum lugar que não tenha um refletor ao menos no banheiro se sente incomodado e logo quer ir embora. Pensa que um dia vai encontrar um desses objetos que lhe confidencie coisas sobre sua própria vida que já esqueceu, prefere não lembrar ou não tem a capacidade de ver sozinho. Ele não se identifica com aquela imagem refletida de olhos vivos. Talvez porque o que é refletido seja o inverso.

Os espelhos são seus quadros de Dorian, em que todos os pecados ficam expostos. Tenta enxergar os seus particulares por ali, mas o espelho insiste em não revela-los, dizer quais foram justos e quais foram em excesso. Sim, porque existem pecados justos.

Como aquela personagem de Kundera, não admite ser aquilo que vê nos espelhos, porque muito do que o compõe não pode ser visto ali. E não se ver por completo o incomoda.

Às vezes deseja que os espelhos sejam como o buraco do coelho da Alice, e que o leve pra um lugar bizarro, com gatos invisíveis, chapeleiros malucos, flores falantes e plantas alucinógenas. Talvez lá os espelhos falem, como aquele o que selou o destino daquela princesinha que mordeu a maça.

Porém, o que mais o irrita nos espelhos é que mesmo que sua alma esteja triste, mas seu semblante não, o objeto seja capaz de refletir um sorriso falso. Por mais que procure por algumas características que lhe conferem, não as encontra. Gosta quando colocam um espelho em frente do outro para formar o infinito. Gosta do efeito do sol refletido.

Busca no espelho um amigo com o qual possa compartilhar detalhes sobre os jogos de prazer que a vida tem reservado a ele. Acaba encontrando um amigo mudo, complacente. O espelho não passa de mais um vício que o distrai e o rouba, nem que por segundos, do mundo que não é o país de copas onde gostaria de estar. No fundo, ambos são feitos do mesmo material, já que ele acredita ter coração de vidro.