quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Personagens diferentes, situações parecidas.

Um dos filmes que assisti esse final de semana foi Becoming Jane (lançado no Brasil com o título simplista – como a maioria – Amor e Inocência), que em uma tradução livre significa Tornando-se Jane. A produção inglesa com lindos atores europeus em performances invejáveis é uma cinebiografia romanceada da ousada, para os padrões da época, escritora Jane Austen, que tem entre as seis obras produzidas “Orgulho e Preconceito”, também filmado recentemente e consagrado em festivais e premiações.
Na verdade, Becoming Jane não narra toda a vida de Austen, mas sim, como o título sugere, a fase adolescente daquela que viria a ser a grande mulher Jane Austen e os fatos que a inspiraram a escrever o já citado “Orgulho e Preconceito”, sua obra-prima.
O filme é redondo, sem furos de produção, roteiro, direção e interpretação. Fotografia agradável e maquiagem de envelhecimento que até convencem, não aquelas coisas horrendas que vemos em alguns filmes. Uma típica produção hollywoodiana que não apresenta nada de novo no modus operanti “fazer” cinema, a não ser reforçar fórmulas anteriores que resultam em um longa bem feito.

Mas o que me motivou a escrever sobre o filme não tem nada a ver com defini-lo ou avaliá-lo (pelo menos neste post..hehe) a partir das teorias do cinema ou coisas do estilo. Por que mesmo passando despercebido, por não ter nada “inovador” foi um filme, do gênero que chamo de água-com-açúcar-e-muitos-lenços-de-papéis, que me tocou.
O mote é praticamente o mesmo do “Orgulho e Preconceito”, em que a jovem inglesa do séc XVII se vê entre a terrível dúvida de ouvir seu coração e casar-se com o tal amor verdadeiro ou ouvir a razão e escolher o melhor partido. É claro que a fulgurante Jane, na mais tenra época da vida, a fase em que se conhece O primeiro amor (se é que existe um segundo, terceiro, quarto...), sofre indescritivelmente por ter qua abrir mão do homem que acorda as borboletas em seu estômago. Os conflitos levantados pelo filme podem até serem considerados ultrapassados, mas será que são?

Pessoas do mesmo sexo, ou de idades bem diferentes, que queiram ficar juntas não passam pelas mesmas dificuldades que a jovem Austen passou? Para se encontrar com Tom Lefroy, o cara por quem foi perdidamente apaixonada, Jane tinha que criar planos mirabolantes, afim de evitar murmurinhos (em vão, porque eles sempre surgiam). Atualmente pode até ser que homens e mulheres que se amam e não possuam “compatibilidade financeira” consigam triunfar e viverem felizes para sempre sem que a sociedade imponha toda sua moralidade na relação. No entanto, gays são obrigados a ficarem pelos cantos ou se divertirem em guetos durante os outros 364 dias em que não existe parada do orgulho. Pra ficar no campo cinematográfico, está aí Brokeback Mountain. As inquetações de Jane Austen continuam pulsantes nas veias de boa parte do mundo, talvez por isso que ela voltou “a moda”. Não vou contar, mas o fim de Jane, no filme (e na vida real, conseqüentemente) não é o mais feliz. Que possamos escrever a nossa história com certas adaptações.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Escolhas e imposições


"É amor, e não a vida, o contrário da morte."



Nos olhos as lágrimas brotam. Vão aumentando, com a facilidade que cresce um novo pé de feijão de um grãozinho envolto em um pedaço de algodão enchardado d’água, como nas experiências das aulas de ciências do primário.

Ele era um bom rapaz que só fazia cantar na vida. Cantava e tocava com a destreza de mestre. A primeira vez que o vi foi em uma dessas ocasiões em que o suor empapava a camiseta num daqueles ensaios de horas no porão da casa do amigo com o qual formou a primeira banda. Dizia-se roqueiro, mas não deixava de dedilhar composições brasileiras dos anos 70 nos violões emprestados.


Nas noites de sábado, juntava amigos e desconhecidos em volta dele, em uma praça qualquer ou em um canto qualquer para beber e entoar canções dos seus músicos prefeiros. Poucas aulas, que não duravam muito, em que tentava repassar o que aprendeu sozinho, dividiam tempo com as outras atividades que se resumiam em ensaios, sonos, porres e longas conversas sobre qualquer coisa sem sentido ou inútil.


Como sonho, tinha o de fazer sucesso com uma das várias bandas que montou tocando o que lhe agradava e o que compunha. Não pode realizá-lo. Foi na madrugada de um Finados, chuvoso, como de praxe, que, sem explicações desapareceu enquanto tentava atravessar o trecho de um rio. Na noite anterior tinha cantado e tocado com toda sua força e a já mencionada destreza. Na mão sempre um copo. Na boca e na mente sempre álcool. Tinha 27 anos, a idade que seus principais ídolos tinham quando morreram, acidental ou propositalmente. Enquanto se divertia em uma festa que animava não imaginava que 27 também seria a idade com que seria eternizado por conta das águas.


O único intuito conhecido com a atitude que o fez perder a vida era o de se divertir, nada mais. Os amigos só notaram que algo estava estranho quando todos chegaram à outra margem e ele não. Ele tinha ido para uma terceira margem. O corpo foi encontrado e retirado de um trecho até que raso do rio horas depois, enrolado em cipós. Já não estava mais ali. Alguns dos amigos que lhe emprestavam violões tocaram enquanto seu caixão descia na sepultura, dois dias depois do episódio fatídico.


Um ano depois, os amigos, que se descubriu serem muitos, se juntavam pela segunda vez para homenageá-lo, com música e álcool, lógico. Seu sonho era fazer sucesso com uma de suas bandas, mas sua voz e seu dedilhado por si só fizeram sucesso entre os que o admiravam.


Com a mesma rapidez que as lágrimas brotam, como os feijões, elas secam. Nunca o vi chorando, apenas sorrindo. Entrou para a lista de seus ídolos como ídolo de uma legião aos 27 anos por um motivo acidental. Algumas coisas, como as lágrimas, não são escolhas. São imposições e nos resta aceitar e pensar que poderia ter sido diferente. O brotar das lágrimas também voltou a fazer aniversário... por imposição.