quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pedaços de mim




"O amor é cego; a amizade fecha os olhos."
B. Pascal

“A saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”
Chico Buarque


As vezes a vida nos afasta de quem não queremos nos afastar. Não entendo ao certo o motivo. Li uma vez um texto em que o autor filosofa sobre como seria se nascêssemos velhos e fôssemos rejuvenecendo. Descreve quão bom seria se nossos amigos de velhice, rejuvenecessem conosco passando pelo começo da maturidade, adolescência e infância. Seria o melhor, mas num é assim que acontece.


Já não tenho mais contato com o amigo que me ensinou a andar de bicicleta. Ele se foi antes mesmo d’eu ter habilitação. Já não tenho mais o amigo que fugiu de casa comigo pela primeira vez. Ele também se foi antes que eu desse início a epopéia de morar sozinho. Não tenho mais a presença do amigo pro qual eu contei que havia dado meu primeiro beijo. Esse também não soube o que achei sobre o sexo, quando perdi a virgindade, não me viu sofrer por amor e nem pôde me aconselhar. Mal falo com com os amigos que viram a agonia com que esperei os resultados dos vestibulares que prestei. Alguns nem sabem que estou quase terminando um curso que gosto, mas na faculdade que não queria.


É triste quando temos que lembrar histórias das nossas vidas no silêncio. Sozinho. Simplesmente porque alguns dos personagens que dividiram cena conosco não estão ali pra comentar ou pra rir junto. Resta-nos compartilhar esse tipo de lembrança com alguém que faz parte das nossas vidas agora, no entanto não é a mesma coisa. Os acontecimentos, os signos e as palavras não têm o mesmo valor. E uma incrível façanha ou um terrível drama podem se tornar sem sentido.


Existem amigos que são como dentes de leite. Sofremos muito até que nasçam. Depois, eles se tornam essenciais em nossas vidas, o que não imaginamos é que um dia vamos perdê-los. E vazios se formarão em seus lugares. Eventualmente outros nascerão, mas não vão preencher aquele lugar como o que estava ali antes preencheu. Aquele, daquele jeitinho, que nos ajudou tanto, não vai voltar. Guardamos esses dentes em algum lugar e hora ou outra os vemos entre objetos no guarda-roupas, mas ele não fará mais parte da sua rotina. Acostumaremo-nos com os novos, gostaremos dele tanto quanto dos que se foram. Mas é diferente.


Espero que um dia possa entender porque o acaso que nos une também nos separa. Mente quem diz que tempo e distância não influem. Influem. E dizer que não é só se enganar e ficar preso a um passado que, por melhor que foi, não voltará. E trágicas serão as tentativas pra que volte. Quando se pensa que um dia não se terá mais o contato diário com um amigo muito querido é que se passa a entender melhor o que as pessoas querem dizer com o tal 'carpe diem'. Entende-se o porque temos que aproveitar cada segundo como se fosse o último. Porque chegará uma hora que as gargalhadas, as discussões, as baladas, os jantares e as idas ao supermercado se tranformarão em lembranças de silêncio.