
“E o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como morro de amor, pra tentar reviver. No fundo é uma eterna criança, que não soube amadurecer. Eu posso ele não vai poder, me esquecer.”(Resposta ao tempo – Nana Caymmi)
O tempo grita o que não queremos ouvir. Sua voz é nada aveludada como a de uma cantora da época áurea do rádio. Pelo contrário. É uma voz rouca, velha, de quem fumou por toda a vida e agora, em seu fim só faz tossir e pigarrear exalando o forte odor da podridão provocada pelo previsível câncer . Usando dessa voz, irrita-nos tecendo uma grande teia com a viscosidade de nossos vícios e frustrações, metamorfoseando-se na viúva negra prestes a executar o macho, nós, é claro.
O tempo bate em nossos rostos com sua mão áspera. Não como uma mãe desorientada à fim de corrigir um filho desobediente, mas como um militar, que comete mais um abuso de autoridade, com a justificativa de que as fotos não tiradas, as noites à deriva, as promessas não cumpridas e os filhos não concebidos não foram em razão da ausência de câmeras, mares turbulentos, impossibilidades ou infertilidade. Não foram fruto do inevitável. Foram em razão da falta de disposição e outros motivos que, na verdade não são motivos pra ele. Pro tempo, sempre é tempo, o que o torna ditador.
O tempo senta na poltrona ao lado das nossas no ônibus que nos toma ainda mais tempo. Ele nos olha com olhos negros emoldurados em rugas. O tempo insiste em se fazer notar enquanto tentamos, em vão, não dar a mínima pra ele. Não pára de olhar pro maldito relógio de pulso, o que faz pensar no atraso, nos minutos perdidos, nas chances despediçadas. O cretino ainda ousa tentar nos enganar, se camuflando. No entanto, séculos, décadas, dias e até segundos não passam de disfarces grosseiros desse que nos viu nascer e vai nos enterrar.
Já ouvi dizer que ele, o tempo, é primo-irmão da solidão. Resultado de um caso incestuoso, desconta o amargor em nós, porque sabe que o abominamos. E que não perdemos a esperança de que tempos melhores venham. Que a chuva cesse. Que caminhemos de mãos dadas com ele no parque, despreocupados. O que o tempo não percebe é que “ele aprisiona, enquanto nós nos libertamos.”

