domingo, 7 de dezembro de 2008

Cama


Sempre disseram pra ele que dormia demais. Quem não dorme não sonha, respondia. Quem não sonha não explora os desejos mais ocultos que se encontram no subconsciente. Logo, quem não sonha não vive, em sua opinião. É nos sonhos que ele descarrega todo seu estresse. É no sonho que se dedica ao estudo do futuro do pretérito. Nele falaria sobre e com suas paixões, arrancaria suspiros com declarações, beijaria o mundo, treparia pela eternidade.



Até os pesadelos o deixam feliz. Uma vez que através deles exorciza suas aflições e enfrenta seus medos, mesmo correndo o risco de acordar empapado em suor. Sim, dormir é uma arte, afirma. Pensa que todos são Salvador Dalí enquanto dormem, pintando as próprias surrealidades. Todos são Quixotes brigando com os próprios moinhos de vento.



Sonhar o leva para o paraíso de Dante, para Pasárgada de Bandeira, para os Campos de Morango de Lennon.



Se não sonhasse, não viveria. Se não sonhasse não preveria o dia seguinte e nem reviveria o anterior. Ficaria preso a um hoje infinito, o que iria privá-lo do benefício do dia após o outro. O de adormecer mágoas ou se refazer das batalhas travadas com a rotina. Odeia arrumar a cama e apagar as marcas do sono. Arrumá-la é como negar o sono, o sonho, enfim, a vida. A cama desarrumada é a sua obra de arte.

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