sábado, 27 de setembro de 2008

Ela


Ela corria para não se atrasar. Não adiantava, ela iria se atrasar. Havia até pedido para sair mais cedo no início do expediente, redigira uma carta correndo para seu chefe, mas não tinha adiantado. Atrasou-se. Não teve a oportunidade de usar aqueles sapatinhos números 35 que ganhara das meninas do escritório, não teve a oportunidade de usar aquela lingerie, que sua irmã lhe dera como um mino em seu aniversário, branca com rendas, transparente, o sutiã que realçava os seios nem um pouco volumosos que possuía. Ela não teve oportunidade. Nunca.
Começou a trabalhar com 12 anos na casa de um amigo de seu pai, ele oferecera o emprego para sua mãe, como agora era viúva precisaria de ajuda para manter a casa e cuidar dos dois filhos e três filhas...Talvez quatro, contando com Ela, nome dado por seu pai em homenagem a uma das putas com quem traía a mulher. Por sinal a única coisa que deixara para família era a oferta de emprego de doméstica para a filha mais velha. Terminou o segundo grau, que dividia espaço com os empregos que teve. Fez um curso técnico gratuito no bairro em que morava. Não fez faculdade. Era secretaria. Não teve oportunidades. Nunca.
Não teve a oportunidade de usar a bijuteria, parecida com uma peça usada por Demmi Moore em Ghost (seu filme preferido), que a vizinha fizera para aquela ocasião, nem pôde usar o estojo de maquiagem que ganhara na rifa da paróquia para as obras da igreja. Ah se não tivesse redigido aquela carta! Quem sabe, talvez não se atrasaria. Mas redigiu, e se atrasou.
Quando chegou lá já estavam tirando a decoração, paga pelas, agora, ex-futuras cunhadas. O padre estava indo embora, a mãe já tinha voltado para o interior, as irmãs pra zona, os irmãos...Esses nem chegaram a ir, estavam presos por tráfico, roubo e homicídio. O noivo? O noivo havia fugido com uma das madrinhas da noiva, uma amiga de infância Dela. Sentou então na calçada, parecia aqueles desenhos de calendários disputados pelas adolescentes nos anos 80 onde tinha uma menininha sentada com vestido de chita joelhos juntos e pés separados, mãos juntas ao rosto e cotovelos separados olhando o pôr-do-sol. Começou a sentir raiva da carta que redigira. Raiva que não durou muito. Percebeu que não era a única culpada, então começou a culpar seu pai por fazê-la começar a trabalhar cedo. Começou a se culpar.
Levantou-se.
Levantou-se e deu início a uma caminhada de passos secos e largos. Pegou um ônibus e foi até sua casa na periferia da cidade. Quando desceu do ônibus na porta de sua casa começou a chover. Entrou. Foi ao seu quarto pegou os sapatinhos, a lingerie, a jóia igual a da Demmi Moore (essa com muito cuidado), pegou a maquiagem da paróquia e foi ao encontro de suas irmãs.
Saiu na chuva com tudo dentro de um saco plástico, entrou de novo em um ônibus. Chegando lá lhe mostraram seu quarto, seu novo quarto e seu primeiro cliente, que por coincidência, era amigo de seus irmãos. No momento em que olhava aquela velha porta iluminada por uma luzinha amarela, com os sapatinhos em seus pés, a lingerie em seu corpo, a maquiagem em seu rosto sentada na cama a espera de seu cliente, começou a lembrar de sua vida dolorosa e sentiu vontade de voltar a redigir cartas e de se atrasar. Pegou a bijuteria do criado mudo e saiu correndo. O cliente começou a correr atrás Dela, ele já tinha feito com a dona do bordel a transação pagou-comeu. Enfurecido por não conseguir alcançá-La, sacou de seu bolso uma arma e atirou. Ela nunca teve oportunidades. Nunca. Sentiu-se gelada, depois começou a não sentir mais seus membros. Em um ato rápido pegou a jóia e colocou em seu pescoço, logo depois caiu em uma poça d’água. Agora não passava de um corpo sujo de lama. Ainda chovia.

2 comentários:

Alkimia Fotografia & Comunicação disse...

Gostei do texto. Vc tem muitos outros?

Rnto. disse...

Tenho mais alguns sim, Ester. Vou postando com o tempo, conforme for dando coragem!
Valeu pela visita!