sábado, 27 de setembro de 2008

Time after time


“E o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como morro de amor, pra tentar reviver. No fundo é uma eterna criança, que não soube amadurecer. Eu posso ele não vai poder, me esquecer.”(Resposta ao tempo – Nana Caymmi)


O tempo grita o que não queremos ouvir. Sua voz é nada aveludada como a de uma cantora da época áurea do rádio. Pelo contrário. É uma voz rouca, velha, de quem fumou por toda a vida e agora, em seu fim só faz tossir e pigarrear exalando o forte odor da podridão provocada pelo previsível câncer . Usando dessa voz, irrita-nos tecendo uma grande teia com a viscosidade de nossos vícios e frustrações, metamorfoseando-se na viúva negra prestes a executar o macho, nós, é claro.
O tempo bate em nossos rostos com sua mão áspera. Não como uma mãe desorientada à fim de corrigir um filho desobediente, mas como um militar, que comete mais um abuso de autoridade, com a justificativa de que as fotos não tiradas, as noites à deriva, as promessas não cumpridas e os filhos não concebidos não foram em razão da ausência de câmeras, mares turbulentos, impossibilidades ou infertilidade. Não foram fruto do inevitável. Foram em razão da falta de disposição e outros motivos que, na verdade não são motivos pra ele. Pro tempo, sempre é tempo, o que o torna ditador.
O tempo senta na poltrona ao lado das nossas no ônibus que nos toma ainda mais tempo. Ele nos olha com olhos negros emoldurados em rugas. O tempo insiste em se fazer notar enquanto tentamos, em vão, não dar a mínima pra ele. Não pára de olhar pro maldito relógio de pulso, o que faz pensar no atraso, nos minutos perdidos, nas chances despediçadas. O cretino ainda ousa tentar nos enganar, se camuflando. No entanto, séculos, décadas, dias e até segundos não passam de disfarces grosseiros desse que nos viu nascer e vai nos enterrar.
Já ouvi dizer que ele, o tempo, é primo-irmão da solidão. Resultado de um caso incestuoso, desconta o amargor em nós, porque sabe que o abominamos. E que não perdemos a esperança de que tempos melhores venham. Que a chuva cesse. Que caminhemos de mãos dadas com ele no parque, despreocupados. O que o tempo não percebe é que “ele aprisiona, enquanto nós nos libertamos.”


Ela


Ela corria para não se atrasar. Não adiantava, ela iria se atrasar. Havia até pedido para sair mais cedo no início do expediente, redigira uma carta correndo para seu chefe, mas não tinha adiantado. Atrasou-se. Não teve a oportunidade de usar aqueles sapatinhos números 35 que ganhara das meninas do escritório, não teve a oportunidade de usar aquela lingerie, que sua irmã lhe dera como um mino em seu aniversário, branca com rendas, transparente, o sutiã que realçava os seios nem um pouco volumosos que possuía. Ela não teve oportunidade. Nunca.
Começou a trabalhar com 12 anos na casa de um amigo de seu pai, ele oferecera o emprego para sua mãe, como agora era viúva precisaria de ajuda para manter a casa e cuidar dos dois filhos e três filhas...Talvez quatro, contando com Ela, nome dado por seu pai em homenagem a uma das putas com quem traía a mulher. Por sinal a única coisa que deixara para família era a oferta de emprego de doméstica para a filha mais velha. Terminou o segundo grau, que dividia espaço com os empregos que teve. Fez um curso técnico gratuito no bairro em que morava. Não fez faculdade. Era secretaria. Não teve oportunidades. Nunca.
Não teve a oportunidade de usar a bijuteria, parecida com uma peça usada por Demmi Moore em Ghost (seu filme preferido), que a vizinha fizera para aquela ocasião, nem pôde usar o estojo de maquiagem que ganhara na rifa da paróquia para as obras da igreja. Ah se não tivesse redigido aquela carta! Quem sabe, talvez não se atrasaria. Mas redigiu, e se atrasou.
Quando chegou lá já estavam tirando a decoração, paga pelas, agora, ex-futuras cunhadas. O padre estava indo embora, a mãe já tinha voltado para o interior, as irmãs pra zona, os irmãos...Esses nem chegaram a ir, estavam presos por tráfico, roubo e homicídio. O noivo? O noivo havia fugido com uma das madrinhas da noiva, uma amiga de infância Dela. Sentou então na calçada, parecia aqueles desenhos de calendários disputados pelas adolescentes nos anos 80 onde tinha uma menininha sentada com vestido de chita joelhos juntos e pés separados, mãos juntas ao rosto e cotovelos separados olhando o pôr-do-sol. Começou a sentir raiva da carta que redigira. Raiva que não durou muito. Percebeu que não era a única culpada, então começou a culpar seu pai por fazê-la começar a trabalhar cedo. Começou a se culpar.
Levantou-se.
Levantou-se e deu início a uma caminhada de passos secos e largos. Pegou um ônibus e foi até sua casa na periferia da cidade. Quando desceu do ônibus na porta de sua casa começou a chover. Entrou. Foi ao seu quarto pegou os sapatinhos, a lingerie, a jóia igual a da Demmi Moore (essa com muito cuidado), pegou a maquiagem da paróquia e foi ao encontro de suas irmãs.
Saiu na chuva com tudo dentro de um saco plástico, entrou de novo em um ônibus. Chegando lá lhe mostraram seu quarto, seu novo quarto e seu primeiro cliente, que por coincidência, era amigo de seus irmãos. No momento em que olhava aquela velha porta iluminada por uma luzinha amarela, com os sapatinhos em seus pés, a lingerie em seu corpo, a maquiagem em seu rosto sentada na cama a espera de seu cliente, começou a lembrar de sua vida dolorosa e sentiu vontade de voltar a redigir cartas e de se atrasar. Pegou a bijuteria do criado mudo e saiu correndo. O cliente começou a correr atrás Dela, ele já tinha feito com a dona do bordel a transação pagou-comeu. Enfurecido por não conseguir alcançá-La, sacou de seu bolso uma arma e atirou. Ela nunca teve oportunidades. Nunca. Sentiu-se gelada, depois começou a não sentir mais seus membros. Em um ato rápido pegou a jóia e colocou em seu pescoço, logo depois caiu em uma poça d’água. Agora não passava de um corpo sujo de lama. Ainda chovia.