sábado, 14 de março de 2009

E ele é assim...



Cidadão do mundo. Minha casa é aqui, ali, lá e no lugar seguinte. Construo minhas histórias de acordo com o ritmo com que toca a tal música da qual sou verso. Confirmando o darwinismo, me adapto. E me faço adaptável. Ou que se adaptem. Não tenho medo de me molhar, caminho na chuva e me jogo de cabeça de qualquer trampolim. Depois me seco. Não sonho, concretizo. Passo do pensamento à ação.


O autoritarismo é conseqüência e a ambição inata. Inevitável. Se depender de mim, o homem não só irá a Marte como voltará no tempo, pra sentir o cheiro dos lírios dos jardins da Babilônia. Nem o céu será visto como limite. Não haverá limites, nem fronteiras.


Posso mudar de idéia entre um cigarro e outro. Mas ambas as opiniões serão sinceras, mesmo que controversas. Opiniões são para ser mudadas, uma vez que não existe verdade absoluta e tudo é refutável. Até a vida. Duvida? Quem garante que não estamos mortos? Se acha que não então me prove... Os excêntricos me atraem, me divertem e me distraem, por isso me cerco deles. Talvez até me considere, em caso de estatística. Se for um, junte-se ao clube.


Se amo é intenso e pra sempre, mas o sempre, descobri, tem prescrição, como um crime cometido há muito tempo e julgado tardiamente. Pois é, cedo ou tarde seremos julgados e se julgados podemos ser condenados ou absolvidos. Também julgo, condeno, absolvo e volto a condenar. E porque não, voltar a absolver. Só pra lembrar: não existem limites.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Estranhos prazeres


Toda manhã se olha no espelho. É quase que um transtorno obsessivo-compulsivo. Não interessa onde amanheça a primeira coisa que se lembra é de por seus óculos, acender um cigarro e procurar nem que seja um pedaço de espelho qualquer. Não, não é mais um Narciso que se apaixona mil vezes por ele mesmo. Tenta ver se aquele pedaço de vidro reflete os anos e as aventuras passadas. Os anos são perceptíveis por marcas de expressão mais fortes, olheiras e algumas rugas. Já as aventuras nunca as conseguiu encontrar nos inúmeros espelhos pelos quais se viu.

Sempre quando vai à casa de alguém ou em algum lugar que não tenha um refletor ao menos no banheiro se sente incomodado e logo quer ir embora. Pensa que um dia vai encontrar um desses objetos que lhe confidencie coisas sobre sua própria vida que já esqueceu, prefere não lembrar ou não tem a capacidade de ver sozinho. Ele não se identifica com aquela imagem refletida de olhos vivos. Talvez porque o que é refletido seja o inverso.

Os espelhos são seus quadros de Dorian, em que todos os pecados ficam expostos. Tenta enxergar os seus particulares por ali, mas o espelho insiste em não revela-los, dizer quais foram justos e quais foram em excesso. Sim, porque existem pecados justos.

Como aquela personagem de Kundera, não admite ser aquilo que vê nos espelhos, porque muito do que o compõe não pode ser visto ali. E não se ver por completo o incomoda.

Às vezes deseja que os espelhos sejam como o buraco do coelho da Alice, e que o leve pra um lugar bizarro, com gatos invisíveis, chapeleiros malucos, flores falantes e plantas alucinógenas. Talvez lá os espelhos falem, como aquele o que selou o destino daquela princesinha que mordeu a maça.

Porém, o que mais o irrita nos espelhos é que mesmo que sua alma esteja triste, mas seu semblante não, o objeto seja capaz de refletir um sorriso falso. Por mais que procure por algumas características que lhe conferem, não as encontra. Gosta quando colocam um espelho em frente do outro para formar o infinito. Gosta do efeito do sol refletido.

Busca no espelho um amigo com o qual possa compartilhar detalhes sobre os jogos de prazer que a vida tem reservado a ele. Acaba encontrando um amigo mudo, complacente. O espelho não passa de mais um vício que o distrai e o rouba, nem que por segundos, do mundo que não é o país de copas onde gostaria de estar. No fundo, ambos são feitos do mesmo material, já que ele acredita ter coração de vidro.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Cama


Sempre disseram pra ele que dormia demais. Quem não dorme não sonha, respondia. Quem não sonha não explora os desejos mais ocultos que se encontram no subconsciente. Logo, quem não sonha não vive, em sua opinião. É nos sonhos que ele descarrega todo seu estresse. É no sonho que se dedica ao estudo do futuro do pretérito. Nele falaria sobre e com suas paixões, arrancaria suspiros com declarações, beijaria o mundo, treparia pela eternidade.



Até os pesadelos o deixam feliz. Uma vez que através deles exorciza suas aflições e enfrenta seus medos, mesmo correndo o risco de acordar empapado em suor. Sim, dormir é uma arte, afirma. Pensa que todos são Salvador Dalí enquanto dormem, pintando as próprias surrealidades. Todos são Quixotes brigando com os próprios moinhos de vento.



Sonhar o leva para o paraíso de Dante, para Pasárgada de Bandeira, para os Campos de Morango de Lennon.



Se não sonhasse, não viveria. Se não sonhasse não preveria o dia seguinte e nem reviveria o anterior. Ficaria preso a um hoje infinito, o que iria privá-lo do benefício do dia após o outro. O de adormecer mágoas ou se refazer das batalhas travadas com a rotina. Odeia arrumar a cama e apagar as marcas do sono. Arrumá-la é como negar o sono, o sonho, enfim, a vida. A cama desarrumada é a sua obra de arte.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Personagens diferentes, situações parecidas.

Um dos filmes que assisti esse final de semana foi Becoming Jane (lançado no Brasil com o título simplista – como a maioria – Amor e Inocência), que em uma tradução livre significa Tornando-se Jane. A produção inglesa com lindos atores europeus em performances invejáveis é uma cinebiografia romanceada da ousada, para os padrões da época, escritora Jane Austen, que tem entre as seis obras produzidas “Orgulho e Preconceito”, também filmado recentemente e consagrado em festivais e premiações.
Na verdade, Becoming Jane não narra toda a vida de Austen, mas sim, como o título sugere, a fase adolescente daquela que viria a ser a grande mulher Jane Austen e os fatos que a inspiraram a escrever o já citado “Orgulho e Preconceito”, sua obra-prima.
O filme é redondo, sem furos de produção, roteiro, direção e interpretação. Fotografia agradável e maquiagem de envelhecimento que até convencem, não aquelas coisas horrendas que vemos em alguns filmes. Uma típica produção hollywoodiana que não apresenta nada de novo no modus operanti “fazer” cinema, a não ser reforçar fórmulas anteriores que resultam em um longa bem feito.

Mas o que me motivou a escrever sobre o filme não tem nada a ver com defini-lo ou avaliá-lo (pelo menos neste post..hehe) a partir das teorias do cinema ou coisas do estilo. Por que mesmo passando despercebido, por não ter nada “inovador” foi um filme, do gênero que chamo de água-com-açúcar-e-muitos-lenços-de-papéis, que me tocou.
O mote é praticamente o mesmo do “Orgulho e Preconceito”, em que a jovem inglesa do séc XVII se vê entre a terrível dúvida de ouvir seu coração e casar-se com o tal amor verdadeiro ou ouvir a razão e escolher o melhor partido. É claro que a fulgurante Jane, na mais tenra época da vida, a fase em que se conhece O primeiro amor (se é que existe um segundo, terceiro, quarto...), sofre indescritivelmente por ter qua abrir mão do homem que acorda as borboletas em seu estômago. Os conflitos levantados pelo filme podem até serem considerados ultrapassados, mas será que são?

Pessoas do mesmo sexo, ou de idades bem diferentes, que queiram ficar juntas não passam pelas mesmas dificuldades que a jovem Austen passou? Para se encontrar com Tom Lefroy, o cara por quem foi perdidamente apaixonada, Jane tinha que criar planos mirabolantes, afim de evitar murmurinhos (em vão, porque eles sempre surgiam). Atualmente pode até ser que homens e mulheres que se amam e não possuam “compatibilidade financeira” consigam triunfar e viverem felizes para sempre sem que a sociedade imponha toda sua moralidade na relação. No entanto, gays são obrigados a ficarem pelos cantos ou se divertirem em guetos durante os outros 364 dias em que não existe parada do orgulho. Pra ficar no campo cinematográfico, está aí Brokeback Mountain. As inquetações de Jane Austen continuam pulsantes nas veias de boa parte do mundo, talvez por isso que ela voltou “a moda”. Não vou contar, mas o fim de Jane, no filme (e na vida real, conseqüentemente) não é o mais feliz. Que possamos escrever a nossa história com certas adaptações.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Escolhas e imposições


"É amor, e não a vida, o contrário da morte."



Nos olhos as lágrimas brotam. Vão aumentando, com a facilidade que cresce um novo pé de feijão de um grãozinho envolto em um pedaço de algodão enchardado d’água, como nas experiências das aulas de ciências do primário.

Ele era um bom rapaz que só fazia cantar na vida. Cantava e tocava com a destreza de mestre. A primeira vez que o vi foi em uma dessas ocasiões em que o suor empapava a camiseta num daqueles ensaios de horas no porão da casa do amigo com o qual formou a primeira banda. Dizia-se roqueiro, mas não deixava de dedilhar composições brasileiras dos anos 70 nos violões emprestados.


Nas noites de sábado, juntava amigos e desconhecidos em volta dele, em uma praça qualquer ou em um canto qualquer para beber e entoar canções dos seus músicos prefeiros. Poucas aulas, que não duravam muito, em que tentava repassar o que aprendeu sozinho, dividiam tempo com as outras atividades que se resumiam em ensaios, sonos, porres e longas conversas sobre qualquer coisa sem sentido ou inútil.


Como sonho, tinha o de fazer sucesso com uma das várias bandas que montou tocando o que lhe agradava e o que compunha. Não pode realizá-lo. Foi na madrugada de um Finados, chuvoso, como de praxe, que, sem explicações desapareceu enquanto tentava atravessar o trecho de um rio. Na noite anterior tinha cantado e tocado com toda sua força e a já mencionada destreza. Na mão sempre um copo. Na boca e na mente sempre álcool. Tinha 27 anos, a idade que seus principais ídolos tinham quando morreram, acidental ou propositalmente. Enquanto se divertia em uma festa que animava não imaginava que 27 também seria a idade com que seria eternizado por conta das águas.


O único intuito conhecido com a atitude que o fez perder a vida era o de se divertir, nada mais. Os amigos só notaram que algo estava estranho quando todos chegaram à outra margem e ele não. Ele tinha ido para uma terceira margem. O corpo foi encontrado e retirado de um trecho até que raso do rio horas depois, enrolado em cipós. Já não estava mais ali. Alguns dos amigos que lhe emprestavam violões tocaram enquanto seu caixão descia na sepultura, dois dias depois do episódio fatídico.


Um ano depois, os amigos, que se descubriu serem muitos, se juntavam pela segunda vez para homenageá-lo, com música e álcool, lógico. Seu sonho era fazer sucesso com uma de suas bandas, mas sua voz e seu dedilhado por si só fizeram sucesso entre os que o admiravam.


Com a mesma rapidez que as lágrimas brotam, como os feijões, elas secam. Nunca o vi chorando, apenas sorrindo. Entrou para a lista de seus ídolos como ídolo de uma legião aos 27 anos por um motivo acidental. Algumas coisas, como as lágrimas, não são escolhas. São imposições e nos resta aceitar e pensar que poderia ter sido diferente. O brotar das lágrimas também voltou a fazer aniversário... por imposição.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pedaços de mim




"O amor é cego; a amizade fecha os olhos."
B. Pascal

“A saudade é o revés de um parto, a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”
Chico Buarque


As vezes a vida nos afasta de quem não queremos nos afastar. Não entendo ao certo o motivo. Li uma vez um texto em que o autor filosofa sobre como seria se nascêssemos velhos e fôssemos rejuvenecendo. Descreve quão bom seria se nossos amigos de velhice, rejuvenecessem conosco passando pelo começo da maturidade, adolescência e infância. Seria o melhor, mas num é assim que acontece.


Já não tenho mais contato com o amigo que me ensinou a andar de bicicleta. Ele se foi antes mesmo d’eu ter habilitação. Já não tenho mais o amigo que fugiu de casa comigo pela primeira vez. Ele também se foi antes que eu desse início a epopéia de morar sozinho. Não tenho mais a presença do amigo pro qual eu contei que havia dado meu primeiro beijo. Esse também não soube o que achei sobre o sexo, quando perdi a virgindade, não me viu sofrer por amor e nem pôde me aconselhar. Mal falo com com os amigos que viram a agonia com que esperei os resultados dos vestibulares que prestei. Alguns nem sabem que estou quase terminando um curso que gosto, mas na faculdade que não queria.


É triste quando temos que lembrar histórias das nossas vidas no silêncio. Sozinho. Simplesmente porque alguns dos personagens que dividiram cena conosco não estão ali pra comentar ou pra rir junto. Resta-nos compartilhar esse tipo de lembrança com alguém que faz parte das nossas vidas agora, no entanto não é a mesma coisa. Os acontecimentos, os signos e as palavras não têm o mesmo valor. E uma incrível façanha ou um terrível drama podem se tornar sem sentido.


Existem amigos que são como dentes de leite. Sofremos muito até que nasçam. Depois, eles se tornam essenciais em nossas vidas, o que não imaginamos é que um dia vamos perdê-los. E vazios se formarão em seus lugares. Eventualmente outros nascerão, mas não vão preencher aquele lugar como o que estava ali antes preencheu. Aquele, daquele jeitinho, que nos ajudou tanto, não vai voltar. Guardamos esses dentes em algum lugar e hora ou outra os vemos entre objetos no guarda-roupas, mas ele não fará mais parte da sua rotina. Acostumaremo-nos com os novos, gostaremos dele tanto quanto dos que se foram. Mas é diferente.


Espero que um dia possa entender porque o acaso que nos une também nos separa. Mente quem diz que tempo e distância não influem. Influem. E dizer que não é só se enganar e ficar preso a um passado que, por melhor que foi, não voltará. E trágicas serão as tentativas pra que volte. Quando se pensa que um dia não se terá mais o contato diário com um amigo muito querido é que se passa a entender melhor o que as pessoas querem dizer com o tal 'carpe diem'. Entende-se o porque temos que aproveitar cada segundo como se fosse o último. Porque chegará uma hora que as gargalhadas, as discussões, as baladas, os jantares e as idas ao supermercado se tranformarão em lembranças de silêncio.

sábado, 27 de setembro de 2008

Time after time


“E o tempo se rói com inveja de mim, me vigia querendo aprender como morro de amor, pra tentar reviver. No fundo é uma eterna criança, que não soube amadurecer. Eu posso ele não vai poder, me esquecer.”(Resposta ao tempo – Nana Caymmi)


O tempo grita o que não queremos ouvir. Sua voz é nada aveludada como a de uma cantora da época áurea do rádio. Pelo contrário. É uma voz rouca, velha, de quem fumou por toda a vida e agora, em seu fim só faz tossir e pigarrear exalando o forte odor da podridão provocada pelo previsível câncer . Usando dessa voz, irrita-nos tecendo uma grande teia com a viscosidade de nossos vícios e frustrações, metamorfoseando-se na viúva negra prestes a executar o macho, nós, é claro.
O tempo bate em nossos rostos com sua mão áspera. Não como uma mãe desorientada à fim de corrigir um filho desobediente, mas como um militar, que comete mais um abuso de autoridade, com a justificativa de que as fotos não tiradas, as noites à deriva, as promessas não cumpridas e os filhos não concebidos não foram em razão da ausência de câmeras, mares turbulentos, impossibilidades ou infertilidade. Não foram fruto do inevitável. Foram em razão da falta de disposição e outros motivos que, na verdade não são motivos pra ele. Pro tempo, sempre é tempo, o que o torna ditador.
O tempo senta na poltrona ao lado das nossas no ônibus que nos toma ainda mais tempo. Ele nos olha com olhos negros emoldurados em rugas. O tempo insiste em se fazer notar enquanto tentamos, em vão, não dar a mínima pra ele. Não pára de olhar pro maldito relógio de pulso, o que faz pensar no atraso, nos minutos perdidos, nas chances despediçadas. O cretino ainda ousa tentar nos enganar, se camuflando. No entanto, séculos, décadas, dias e até segundos não passam de disfarces grosseiros desse que nos viu nascer e vai nos enterrar.
Já ouvi dizer que ele, o tempo, é primo-irmão da solidão. Resultado de um caso incestuoso, desconta o amargor em nós, porque sabe que o abominamos. E que não perdemos a esperança de que tempos melhores venham. Que a chuva cesse. Que caminhemos de mãos dadas com ele no parque, despreocupados. O que o tempo não percebe é que “ele aprisiona, enquanto nós nos libertamos.”