
sábado, 14 de março de 2009
E ele é assim...

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Estranhos prazeres

Sempre quando vai à casa de alguém ou em algum lugar que não tenha um refletor ao menos no banheiro se sente incomodado e logo quer ir embora. Pensa que um dia vai encontrar um desses objetos que lhe confidencie coisas sobre sua própria vida que já esqueceu, prefere não lembrar ou não tem a capacidade de ver sozinho. Ele não se identifica com aquela imagem refletida de olhos vivos. Talvez porque o que é refletido seja o inverso.
Os espelhos são seus quadros de Dorian, em que todos os pecados ficam expostos. Tenta enxergar os seus particulares por ali, mas o espelho insiste em não revela-los, dizer quais foram justos e quais foram em excesso. Sim, porque existem pecados justos.
Como aquela personagem de Kundera, não admite ser aquilo que vê nos espelhos, porque muito do que o compõe não pode ser visto ali. E não se ver por completo o incomoda.
Às vezes deseja que os espelhos sejam como o buraco do coelho da Alice, e que o leve pra um lugar bizarro, com gatos invisíveis, chapeleiros malucos, flores falantes e plantas alucinógenas. Talvez lá os espelhos falem, como aquele o que selou o destino daquela princesinha que mordeu a maça.
Porém, o que mais o irrita nos espelhos é que mesmo que sua alma esteja triste, mas seu semblante não, o objeto seja capaz de refletir um sorriso falso. Por mais que procure por algumas características que lhe conferem, não as encontra. Gosta quando colocam um espelho em frente do outro para formar o infinito. Gosta do efeito do sol refletido.
Busca no espelho um amigo com o qual possa compartilhar detalhes sobre os jogos de prazer que a vida tem reservado a ele. Acaba encontrando um amigo mudo, complacente. O espelho não passa de mais um vício que o distrai e o rouba, nem que por segundos, do mundo que não é o país de copas onde gostaria de estar. No fundo, ambos são feitos do mesmo material, já que ele acredita ter coração de vidro.
domingo, 7 de dezembro de 2008
Cama
Até os pesadelos o deixam feliz. Uma vez que através deles exorciza suas aflições e enfrenta seus medos, mesmo correndo o risco de acordar empapado em suor. Sim, dormir é uma arte, afirma. Pensa que todos são Salvador Dalí enquanto dormem, pintando as próprias surrealidades. Todos são Quixotes brigando com os próprios moinhos de vento.
Sonhar o leva para o paraíso de Dante, para Pasárgada de Bandeira, para os Campos de Morango de Lennon.
Se não sonhasse, não viveria. Se não sonhasse não preveria o dia seguinte e nem reviveria o anterior. Ficaria preso a um hoje infinito, o que iria privá-lo do benefício do dia após o outro. O de adormecer mágoas ou se refazer das batalhas travadas com a rotina. Odeia arrumar a cama e apagar as marcas do sono. Arrumá-la é como negar o sono, o sonho, enfim, a vida. A cama desarrumada é a sua obra de arte.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Personagens diferentes, situações parecidas.
O filme é redondo, sem furos de produção, roteiro, direção e interpretação. Fotografia agradável e maquiagem de envelhecimento que até convencem, não aquelas coisas horrendas que vemos em alguns filmes. Uma típica produção hollywoodiana que não apresenta nada de novo no modus operanti “fazer” cinema, a não ser reforçar fórmulas anteriores que resultam em um longa bem feito.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Escolhas e imposições

"É amor, e não a vida, o contrário da morte."
Nos olhos as lágrimas brotam. Vão aumentando, com a facilidade que cresce um novo pé de feijão de um grãozinho envolto em um pedaço de algodão enchardado d’água, como nas experiências das aulas de ciências do primário.
Ele era um bom rapaz que só fazia cantar na vida. Cantava e tocava com a destreza de mestre. A primeira vez que o vi foi em uma dessas ocasiões em que o suor empapava a camiseta num daqueles ensaios de horas no porão da casa do amigo com o qual formou a primeira banda. Dizia-se roqueiro, mas não deixava de dedilhar composições brasileiras dos anos 70 nos violões emprestados.
Nas noites de sábado, juntava amigos e desconhecidos em volta dele, em uma praça qualquer ou em um canto qualquer para beber e entoar canções dos seus músicos prefeiros. Poucas aulas, que não duravam muito, em que tentava repassar o que aprendeu sozinho, dividiam tempo com as outras atividades que se resumiam em ensaios, sonos, porres e longas conversas sobre qualquer coisa sem sentido ou inútil.
Como sonho, tinha o de fazer sucesso com uma das várias bandas que montou tocando o que lhe agradava e o que compunha. Não pode realizá-lo. Foi na madrugada de um Finados, chuvoso, como de praxe, que, sem explicações desapareceu enquanto tentava atravessar o trecho de um rio. Na noite anterior tinha cantado e tocado com toda sua força e a já mencionada destreza. Na mão sempre um copo. Na boca e na mente sempre álcool. Tinha 27 anos, a idade que seus principais ídolos tinham quando morreram, acidental ou propositalmente. Enquanto se divertia em uma festa que animava não imaginava que 27 também seria a idade com que seria eternizado por conta das águas.
O único intuito conhecido com a atitude que o fez perder a vida era o de se divertir, nada mais. Os amigos só notaram que algo estava estranho quando todos chegaram à outra margem e ele não. Ele tinha ido para uma terceira margem. O corpo foi encontrado e retirado de um trecho até que raso do rio horas depois, enrolado em cipós. Já não estava mais ali. Alguns dos amigos que lhe emprestavam violões tocaram enquanto seu caixão descia na sepultura, dois dias depois do episódio fatídico.
Um ano depois, os amigos, que se descubriu serem muitos, se juntavam pela segunda vez para homenageá-lo, com música e álcool, lógico. Seu sonho era fazer sucesso com uma de suas bandas, mas sua voz e seu dedilhado por si só fizeram sucesso entre os que o admiravam.
Com a mesma rapidez que as lágrimas brotam, como os feijões, elas secam. Nunca o vi chorando, apenas sorrindo. Entrou para a lista de seus ídolos como ídolo de uma legião aos 27 anos por um motivo acidental. Algumas coisas, como as lágrimas, não são escolhas. São imposições e nos resta aceitar e pensar que poderia ter sido diferente. O brotar das lágrimas também voltou a fazer aniversário... por imposição.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Pedaços de mim

Chico Buarque
Já não tenho mais contato com o amigo que me ensinou a andar de bicicleta. Ele se foi antes mesmo d’eu ter habilitação. Já não tenho mais o amigo que fugiu de casa comigo pela primeira vez. Ele também se foi antes que eu desse início a epopéia de morar sozinho. Não tenho mais a presença do amigo pro qual eu contei que havia dado meu primeiro beijo. Esse também não soube o que achei sobre o sexo, quando perdi a virgindade, não me viu sofrer por amor e nem pôde me aconselhar. Mal falo com com os amigos que viram a agonia com que esperei os resultados dos vestibulares que prestei. Alguns nem sabem que estou quase terminando um curso que gosto, mas na faculdade que não queria.
É triste quando temos que lembrar histórias das nossas vidas no silêncio. Sozinho. Simplesmente porque alguns dos personagens que dividiram cena conosco não estão ali pra comentar ou pra rir junto. Resta-nos compartilhar esse tipo de lembrança com alguém que faz parte das nossas vidas agora, no entanto não é a mesma coisa. Os acontecimentos, os signos e as palavras não têm o mesmo valor. E uma incrível façanha ou um terrível drama podem se tornar sem sentido.
Existem amigos que são como dentes de leite. Sofremos muito até que nasçam. Depois, eles se tornam essenciais em nossas vidas, o que não imaginamos é que um dia vamos perdê-los. E vazios se formarão em seus lugares. Eventualmente outros nascerão, mas não vão preencher aquele lugar como o que estava ali antes preencheu. Aquele, daquele jeitinho, que nos ajudou tanto, não vai voltar. Guardamos esses dentes em algum lugar e hora ou outra os vemos entre objetos no guarda-roupas, mas ele não fará mais parte da sua rotina. Acostumaremo-nos com os novos, gostaremos dele tanto quanto dos que se foram. Mas é diferente.
Espero que um dia possa entender porque o acaso que nos une também nos separa. Mente quem diz que tempo e distância não influem. Influem. E dizer que não é só se enganar e ficar preso a um passado que, por melhor que foi, não voltará. E trágicas serão as tentativas pra que volte. Quando se pensa que um dia não se terá mais o contato diário com um amigo muito querido é que se passa a entender melhor o que as pessoas querem dizer com o tal 'carpe diem'. Entende-se o porque temos que aproveitar cada segundo como se fosse o último. Porque chegará uma hora que as gargalhadas, as discussões, as baladas, os jantares e as idas ao supermercado se tranformarão em lembranças de silêncio.
sábado, 27 de setembro de 2008
Time after time

O tempo grita o que não queremos ouvir. Sua voz é nada aveludada como a de uma cantora da época áurea do rádio. Pelo contrário. É uma voz rouca, velha, de quem fumou por toda a vida e agora, em seu fim só faz tossir e pigarrear exalando o forte odor da podridão provocada pelo previsível câncer . Usando dessa voz, irrita-nos tecendo uma grande teia com a viscosidade de nossos vícios e frustrações, metamorfoseando-se na viúva negra prestes a executar o macho, nós, é claro.
O tempo bate em nossos rostos com sua mão áspera. Não como uma mãe desorientada à fim de corrigir um filho desobediente, mas como um militar, que comete mais um abuso de autoridade, com a justificativa de que as fotos não tiradas, as noites à deriva, as promessas não cumpridas e os filhos não concebidos não foram em razão da ausência de câmeras, mares turbulentos, impossibilidades ou infertilidade. Não foram fruto do inevitável. Foram em razão da falta de disposição e outros motivos que, na verdade não são motivos pra ele. Pro tempo, sempre é tempo, o que o torna ditador.
O tempo senta na poltrona ao lado das nossas no ônibus que nos toma ainda mais tempo. Ele nos olha com olhos negros emoldurados em rugas. O tempo insiste em se fazer notar enquanto tentamos, em vão, não dar a mínima pra ele. Não pára de olhar pro maldito relógio de pulso, o que faz pensar no atraso, nos minutos perdidos, nas chances despediçadas. O cretino ainda ousa tentar nos enganar, se camuflando. No entanto, séculos, décadas, dias e até segundos não passam de disfarces grosseiros desse que nos viu nascer e vai nos enterrar.
Já ouvi dizer que ele, o tempo, é primo-irmão da solidão. Resultado de um caso incestuoso, desconta o amargor em nós, porque sabe que o abominamos. E que não perdemos a esperança de que tempos melhores venham. Que a chuva cesse. Que caminhemos de mãos dadas com ele no parque, despreocupados. O que o tempo não percebe é que “ele aprisiona, enquanto nós nos libertamos.”

